domingo, 18 de outubro de 2015

Literatura - crônica.

Crônica _08


            Uma criança de dois anos, com fralda e calcinha amarela, agarra o pincel e caminha com a firmeza torta de suas curtas pernas. Cambaleia em direção ao muro. A tinta do pincel respinga no chão, o pincel acaricia o muro, a tinta amarela preenche os poros cimentados da parede e a criança gargalha.
            A gargalhada sobe gostosa em direção ao teto azul de um sábado de Sol. O astro-Rei é inclemente, escorraça o inverno, racha o asfalto, cultiva água na epiderme humana e ilumina o chão de terra, as crianças e os adultos que ocupam o terreno vazio, baldio e estéril que até pouco tempo existia.
            A zona é sul. O bairro Jardim Olinda. O povo é forte e a luta é todo dia. Santo ou não. As armas na reconquista do território são velhas conhecidas, a resistência, o verso e a canção, tudo temperado com loucura, a gosto. Com muito gosto.
Loucura do moleque que diz não, da dona de casa que cobra e reivindica, do poeta da rua que escolhe o verso da rua, do povo que se organiza, do coletivo que nasce fertilizado no estrume do individualismo, da menina que insulta o macho e sua porra de machismo, loucura do professor que incentiva o pensamento, do jovem que afirma ser indígena, da poesia de Brecht e dos punhos cerrados de quem faz questão de dizer, ou melhor, gritar tudo o que pensa.
É oito de agosto. Mês dos loucos.
Aquele terreno vazio, baldio e estéril, que até pouco tempo existia, desaparece. A insanidade poética, o chute da capoeira, a inconcebível leveza da dança, a rebeldia do verso, o sangue, os ossos, o suor, os pés que batem a terra, o sorriso, a pipa da criança, a criança e as pessoas ocupam o terreno, lhe tomam o sossego, expulsam o vazio e fertilizam sua sina.
Durante o dia algumas fotografias em cores vivas fixam-se no bairro.
A música corre o dia todo. Alcança a todos. Ultrapassa coisas e barreiras. Sugere o ritmo e o pensamento.
Um grande muro é afogado em tinta. Desenhos e frases. Retas, círculos e rostos. O spray desce, sobe e assopra. O pincel, este beija carinhosamente o muro, repetidas vezes, calorosamente. Faz o cimento gozado em cores. Figuras, letras e manifestos são criados, co-criados e recriados. Pronto. A Galeria Urbana a Céu Aberto do Jardim Olinda acaba de ser inaugurada.
Os jovens correm. Conversam entre si e com os outros. Explicam, debatem e são explicados. Recolhem assinaturas no abaixo-assinado e sorrisos nas almas. Entram no terreno e saem. Não pedem, não param ou são barrados. O território é deles, melhor, está dentro deles.
A mulher de saia colorida pega, ergue e derruba a enxada. Abre um buraco no chão. Ergue e derruba. Abre buraco maior no chão. Ergue de novo e derruba de novo. O buraco cresce. A mulher de saia colorida cansa, mas não descansa. O buraco nasce e recebe água e raiz. A terra envolve a planta e a mulher de saia colorida caminha com cinco passos, ergue e derruba a enxada. Abre novo buraco no chão. Outro buraco e nova planta. O homem do outro lado da rua ri. A mulher de saia colorida arrasta a enxada e atravessa a rua. Conversa com o homem. Cria um manifesto poético anti-machismo. O homem ri, esconde sua fraqueza, e ri parado do outro lado da rua. A mulher caminha, cruza a rua, ergue e derruba a enxada. Sorri. Novo buraco e outra planta. O verde combate o cinza.
No terreno desassossegado o sarau tem início. A palavra escorre do poeta e cai no chão. O chão encharca-se: palavra-momento, palavra-lugar, palavra-pessoa, palavra-verdade, palavra-mentira, palavra-delírio, palavra - devir...  Cada pessoa cata sua palavra, uma, duas ou cem. Cada pessoa troca, liberta ou guarda sua palavra. Pessoa se torna palavra. Palavra se torna pessoa. O poeta percebe, chora e sorri, continua verso novo e escorre, junto com a palavra.
Fotos registradas pelos olhos. Sentidas pelo tato, cheiradas, degustadas. Fotografias escutadas...
A verdade encanta.

O terreno é público e o território do povo...

Um comentário:

  1. Que lindo início para o nosso blog! Essa crônica, registro de sensibilidades e sutilezas que nascem com a nossa luta, e que nenhum cinza pode apagar.

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