Crônica _08
Uma
criança de dois anos, com fralda e calcinha amarela, agarra o pincel e caminha
com a firmeza torta de suas curtas pernas. Cambaleia em direção ao muro. A
tinta do pincel respinga no chão, o pincel acaricia o muro, a tinta amarela
preenche os poros cimentados da parede e a criança gargalha.
A
gargalhada sobe gostosa em direção ao teto azul de um sábado de Sol. O
astro-Rei é inclemente, escorraça o inverno, racha o asfalto, cultiva água na
epiderme humana e ilumina o chão de terra, as crianças e os adultos que ocupam
o terreno vazio, baldio e estéril que até pouco tempo existia.
A
zona é sul. O bairro Jardim Olinda. O povo é forte e a luta é todo dia. Santo
ou não. As armas na reconquista do território são velhas conhecidas, a resistência,
o verso e a canção, tudo temperado com loucura, a gosto. Com muito gosto.
Loucura do
moleque que diz não, da dona de casa que cobra e reivindica, do poeta da rua
que escolhe o verso da rua, do povo que se organiza, do coletivo que nasce
fertilizado no estrume do individualismo, da menina que insulta o macho e sua
porra de machismo, loucura do professor que incentiva o pensamento, do jovem
que afirma ser indígena, da poesia de Brecht e dos punhos cerrados de quem faz
questão de dizer, ou melhor, gritar tudo o que pensa.
É oito de
agosto. Mês dos loucos.
Aquele terreno
vazio, baldio e estéril, que até pouco tempo existia, desaparece. A insanidade
poética, o chute da capoeira, a inconcebível leveza da dança, a rebeldia do
verso, o sangue, os ossos, o suor, os pés que batem a terra, o sorriso, a pipa
da criança, a criança e as pessoas ocupam o terreno, lhe tomam o sossego,
expulsam o vazio e fertilizam sua sina.
Durante o dia
algumas fotografias em cores vivas fixam-se no bairro.
A música corre
o dia todo. Alcança a todos. Ultrapassa coisas e barreiras. Sugere o ritmo e o
pensamento.
Um grande muro
é afogado em tinta. Desenhos e frases. Retas, círculos e rostos. O spray desce,
sobe e assopra. O pincel, este beija carinhosamente o muro, repetidas vezes, calorosamente.
Faz o cimento gozado em cores. Figuras, letras e manifestos são criados, co-criados
e recriados. Pronto. A Galeria Urbana a Céu Aberto do Jardim Olinda acaba de
ser inaugurada.
Os jovens
correm. Conversam entre si e com os outros. Explicam, debatem e são explicados.
Recolhem assinaturas no abaixo-assinado e sorrisos nas almas. Entram no terreno
e saem. Não pedem, não param ou são barrados. O território é deles, melhor,
está dentro deles.
A mulher de
saia colorida pega, ergue e derruba a enxada. Abre um buraco no chão. Ergue e
derruba. Abre buraco maior no chão. Ergue de novo e derruba de novo. O buraco
cresce. A mulher de saia colorida cansa, mas não descansa. O buraco nasce e
recebe água e raiz. A terra envolve a planta e a mulher de saia colorida caminha
com cinco passos, ergue e derruba a enxada. Abre novo buraco no chão. Outro
buraco e nova planta. O homem do outro lado da rua ri. A mulher de saia
colorida arrasta a enxada e atravessa a rua. Conversa com o homem. Cria um
manifesto poético anti-machismo. O homem ri, esconde sua fraqueza, e ri parado
do outro lado da rua. A mulher caminha, cruza a rua, ergue e derruba a enxada.
Sorri. Novo buraco e outra planta. O verde combate o cinza.
No terreno
desassossegado o sarau tem início. A palavra escorre do poeta e cai no chão. O
chão encharca-se: palavra-momento, palavra-lugar, palavra-pessoa,
palavra-verdade, palavra-mentira, palavra-delírio, palavra - devir... Cada pessoa cata sua palavra, uma, duas ou
cem. Cada pessoa troca, liberta ou guarda sua palavra. Pessoa se torna palavra.
Palavra se torna pessoa. O poeta percebe, chora e sorri, continua verso novo e
escorre, junto com a palavra.
Fotos
registradas pelos olhos. Sentidas pelo tato, cheiradas, degustadas. Fotografias
escutadas...
A verdade
encanta.
O terreno é
público e o território do povo...